Genealogia da moda


Vênus de Velasquez.


Tomo I – O desejo

“Pois que Eros é filho de Pínia e Poros, eis qual é a sua condição. É sempre pobre não é de maneira alguma delicado e belo como geralmente se crê; mas sujo, hirsuto, descalço, sem teto. Deita-se sempre por terra e não possui nada para cobrir-se, descansa dormindo ao ar livre sob as estrelas, nos caminhos e junto às portas. Enfim, mostra claramente a natureza da sua mãe, andando sempre acompanhado da pobreza. Ao invés, da parte do pai, Eros está sempre à espreita dos belos de corpo e de alma, com sagazes ardis. É corajoso, audaz e constante. Eros é um caçador temível, astucioso, sempre armando intrigas. Gosta de invenções e é cheio de expediente para consegui-las. É filósofo o tempo todo, encantador poderoso, fazedor de filtros, sofista. Sua natureza não é nem mortal nem imortal; no mesmo dia, em um momento, quando tudo lhe sucede bem, floresce bem vivo e, no momento seguinte, morre; mas depois retorna à vida, graças à natureza paterna. Mas tudo o que consegue pouco a pouco sempre lhe foge das mãos. Em suma, Eros nunca é totalmente pobre nem totalmente rico”. – Platão (O Banquete).

 

Modotopia: A possibilidade de mudança do que é real


Las Meninas de Velásquez.


O jovem está preso, acorrentado, limitado. A escolha de sua fase – juventude – não é à toa, retrata a principal zona de interdição, inclusão e exclusão dos discursos antes da idade adulta. Ao fundo, notamos uma parede em decomposição, integrando-se em uma harmonia sutil com o cenário de uma oficina mecânica, onde objetos utilitários, de conserto, de supervisão, de invenção estão espalhados categoricamente. Apesar da desordem aparente, ela não está ali, nos objetos e nas coisas. Talvez sim, no que vai ser dito e desfeito em alguns minutos. Há semanas sem se alimentar ritualizar o corpo de forma higiênica, o garoto, na penumbra do quarto, já não possibilita o seu exercício de “direito” como individuo. Está naquela linha tênue, que desde o Liberalismo da Idade Moderna (Séc. XVIII), em uma espécie de ideologização da figura do homem, separa quem é detentor da verdade ou da “liberdade”, e quem está fora deste círculo sistêmico (como se fosse possível romper destas estruturas suas barreiras). Um pequeno feixe de luz, vindo de uma porta de madeira que se abre, interrompe a desrazão da cena. Os passos lentos, calmos, sábios e fixos de um médico, aproximam-se da figura desconcertante do enclausurado. Os olhares já não se reconhecem, apenas tateiam o silêncio, em busca, não da explicação do passado, não da explicação do futuro, mas sim do perigo, da ironia e da extravagância em entender a nervura do real: o presente manifesto na memória. É chegado o instante da reatualização do Ser e da invenção do homem: o médico absorto, segura uma mangueira de água, aponta em direção ao jovem, que assustado, levanta-se na tentativa de proteger-se na parede. Explosão da imagem. Os jatos lavam o corpo do jovem. A ação estaria na ordem da normalidade, se não fosse um dado: o jovem não está nu. Vestindo uma camiseta branca e de cuecas, sua pele torna-se quase translúcida ao entrar em contato com a água. A câmera panóptica do cinema de Pedro Almodóvar aproxima-se em um zoom tão apropriado para a nossa época, que é desvendado, não pelo olhar de quem vê, mas de quem mostra que a única realidade possível ali é a que está escondida, ou no título do próprio filme “A pele que habito”.  Após o banho, a reeducação de um ser, o preparo, o cuidado. Esta parte da película se “encerra” com o médico injetando uma espécie de sonífero no “paciente”. O eterno retorno do mito da caverna de Platão. Lá fora, a luz do sol se manifesta, preparando-se para “iluminar” uma nova identidade.

 

Estamos morrendo de tédio!

Ponto em comum entre a mitologia grega e as nossas atuais “simbologias”: quando uma personagem muda de forma, abandonando o aspecto humano, para se assemelhar a algum elemento natural ou “antinatural”. Ironicamente, usei este paralelo estapafúrdio de duas sociedades narrativas, aparentemente opostas, para exemplificar em como as palavras ortodoxas daqueles que enxergam no capitalismo tardio e no modelo neoliberal, a última derrocada do que se supõe humano, possui um sentido quase “primitivo”.

Não é estranho, em tempos de incertezas e crises, ouvirmos as afirmativas de que o homem, integrado em sua alma e corpo, e sistematizado em um complexo de tecnologias, passará então, a ser designado como homem-máquina. Ou nas palavras de Gramsci: “A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, umas grandes variedades de sintomas mórbidos aparecem”.

No conhecido mito de Narciso, temos a personagem Eco que se apaixona por esta bela criatura, filho do deus do rio, Céfiso. Ao tentar seduzi-lo, Eco só ouve então as últimas palavras do jovem. Eco definha até restar somente sua voz ecoante. Ela amaldiçoa Narciso, que mais tarde torna-se um “tanque” e, vendo nele seu reflexo apaixona-se pela bela imagem que não pode possuir. Ele também definha e ao morrer é transformado na flor narciso. Em nossas narrativas contemporâneas, o cinema, ao lado das outras artes, encarregou-se em mostrar esse mal estar simbiótico.


Salvador Dali e sua metamorfose de Narciso.


 

O Corpo-Texto em Zarella Neto

A busca e a necessidade em reunir as multidões e os sonhos nos trabalhos autorais do fotógrafo paulistano.



Radicalizado na pastoral da carne, o corpo sempre ocupou papel dualístico – bom e mau – nas subjetividades humanas. Revelado nos rituais do cotidiano, ora pela indumentária, ora pelos adornos e pela capacidade atual de modificação, como a body art, a genética e a utilização de máquinas, que potencializam suas belezas e forças, o corpo é também o sentido para o uso estético no campo da moda. A costura no passado – moda no presente – sempre se encarregou de adorná-lo e colocá-lo em um diálogo com a arte. São estas linhas, trançadas ou marcadas pelas agulhas, que nos remete à segurança. O corpo trajado, costurado e enclausurado ressignificam o sonho tribal de união e garantia da vida.

 

Postado em 18/10/2011 | Tags:, ,

Que a rua exploda, então…


Bansky.


Se existe nos gregos antigos uma ligação ou ponto de coexistência com a nossa civilização, esta é a do aparecimento em momentos oportunos da figura de Dionísio. Há muito, tenho pontuado aqui nesta coluna, a necessidade de uma revisão de certos autores, e principalmente, de certos signos, mitos e ritos abandonados em nossa cultura. Falei também, da falência desta cultura, quando ela, não aderindo mais a vida, torna-se um simulacro ou apontar incessante de uma crise superestrutural. Utilizei as reflexões do teatrólogo francês Antonin Artaud como referencial. No artigo de 06 de julho, intitulado de “O Silêncio de Dionísio” indico que, ao contrário do que o filósofo alemão Nietzsche anunciou em “Deus está morto”, era Dionísio então que estava “morto” e “silenciado”, e que só agora, no século das crises, sentimos o seu fétido sepultamento. É chegada a hora da filosofia, da poesia e da anarquia do autor: sua própria negação, ou ainda, o despertar do ato político.

 

Em defesa da sociedade de desesperados



É preciso resgatar as utopias: entoam em uníssono os velhos críticos da crise contemporânea. No pós Era dos Extremos, do adeus do pensamento único e da ordem neoliberal, novas “encenações” de revoluções estremecem as bases das relações de poder. Em menos de um ano, a massa, formada principalmente por jovens e estudantes, tomam as ruas da Espanha, de Portugal, de Londres, da Grécia e dos países árabes, naquilo que os analistas políticos convencionam chamar de primavera árabe. Existe algo em consonância e peculiaridades entre estas manifestações? E no Brasil, por quais motivos a população indignada não ocupou as ruas?

Proponho um ponto de vista não no sentido econômico e social, mas enquanto projeto político, cultural. Se tomarmos como exemplo os três pólos da questão: países árabes, Europa e Brasil – muitos insistem em não entender o motivo da indiferença dos brasileiros em relação à tomada das ruas – perceberemos alguns conflitos, particularidades e cisões. No Oriente Médio e no Norte da África as insurreições desconhecem – pelo menos nesta geração – o significado e o conceito virtual e real de Democracia. A luta nestes países é para a implantação de um Estado de Direito, Representativo e com a participação popular. Talvez, algo próximo das propostas e modelos do começo da ascensão burguesa.

 

A Pólis Sepultada

Nascer: esse gesto bonito do meio, de dizer sim.
Afirmação límpida, caótica, murmurando dolorosa.
Flores de dizer sim.
Se a vida não existe, e apenas o nascer santifica-se no ato,
devo perguntar,
o bélico, a guerra, a fome, a miséria, a lógica e a racionalidade,
se não são apenas afirmações para dizer sim?!
É preciso nascer, para que a vida aconteça,
no entanto, é preciso morrer para que ela continue.
A morte fantasia a vida, que insiste em dizer não.

De tempos em tempos seu soluçar, ora tímido, ora agitado, suspende-se ou paira em nossos corpos. A fantasia é despida como em uma cena teatral, que à mercê do encenador e do espectador realiza-se sob o signo da tragédia, da farsa ou da comédia. É para alguns, a negação do princípio. Para outros, o princípio desta negação. Seu fascínio potente faz a filosofia, a ciência e a religião se debruçarem sobre o enigma. O decifra-me ou devoro-te, o oráculo de não apostas. Por vezes ridicularizada em praça pública, como se o seu poder tivesse sido controlado. Às vezes, raramente, em sociedades específicas, sua bandeira é hasteada com lágrimas de alegria. A morte agita seu estandarte negro, propondo em culturas e civilizações aparentemente díspares a reflexão sobre o ato da existência.

Chegamos ao século do Manifesto da Vida, ou no duplo teatro de paradoxos: assistimos em nossa sociedade, desde o término da Segunda Grande Guerra não só o fim das utopias, mas também a estatização da vida, como se após o nascimento, sua longevidade pudesse ser controlada. Em todos os lados, parece existir um acordo discursivo de que finalmente não morreremos jovens. A ciência, a tecnologia, o biopoder colocam como pauta do dia a ideia de uma longa existência. Dispositivos de controle e cuidado com o corpo, com a beleza e com a saúde proliferam, ideologizando o que no passado foi causa perdida. Finalmente, a Era da Ideologia da Existência. Por outro lado, ao dominarmos os corpos, perdemos, afinal, a capacidade de distinguir o não animal, deixando de lado o pensamento? E quando o pensamento humano justifica a existência? Por quais motivos, o século do totalitarismo, que encenou ao mundo o teatro da crueldade, “decidiu romper” esse legado dedicando-se ao sepultamento do nascimento e da própria morte?

Propositalmente, buscarei minhas evidências e sustentações em uma espécie de arqueologia da morte, em outras culturas ditas não ocidentais. Em todos os mitos, desde o nosso familiar judaico-cristão, o grego, e os “desconhecidos” hindus e africanos, a vida é ceifada quase sempre com a moral do incesto (sexualidade). Sua personagem central – apontando que o patriarcalismo, o machismo e o sexismo, não são exclusividades de nossa “cultura”- é uma mulher. Tabu que serve como sustento, altar, interdição e policiamento para que a morte não provoque seu derradeiro espetáculo. Em uma versão maori, Tane deus das florestas e das árvores, criou a primeira mulher com areia da ilha Hawaiki. Desta criatura nasceu uma filha, Hine Titama, ou ainda, a Donzela da Aurora. Sem saber que Tane era seu pai, a Donzela casou-se com o deus. Ao descobrir o incesto consumado, envergonhada por tamanha desonra, fugiu para o mundo subterrâneo – ou o habitat de Hades na mitologia grega. Nova moral: Tane vai à procura da Donzela, que alega que o seu pai-deus havia cortado a corda do mundo e, a partir daquele momento, ela ficaria no mundo subterrâneo, cumprindo sua dupla função: aterrorizar e convocar os filhos humanos de Tane para a escuridão.



 

Seremos anti-heróis

No século XV uma gravura de Albrecht Dürer intitulada “Melancolia I” desnuda a imagem ideológica daquele tempo. O caráter melancólico desposa a geometria, com constastes de serenidade e harmonia: a investigação do universo, por meio das “artes práticas”. Em “Escola de Atenas”, do geômetra Euclides, o prenúncio do homem barroco, sua indagação do mundo e do universo nas bibliotecas e nos livros. O ser melancólico deixa cair os instrumentos, ou os tem, inoperantes nas mãos.  Como descreve Humberto Eco em “História da Beleza”, duas particularidades do estado de espírito. No primeiro, ars geometrica, no qual a geometria adquire uma alma. No último, o homo melancolicus: a brutalidade da intelectualidade plena.

Se a nossa época foi marcada pelo constante desejo de dominar o mundo, característica “natural” do ser humano por meio das forças de trabalho foi também a sociedade que mais soluçou o cansaço e o desânimo que sentimos hoje. Após o início das lutas e as reivindicações dos Direitos, sua pungência e estado de sítio. Como em “Melancolia I” o homem contemporâneo ainda busca sua resistência à barbárie, através da organização de uma “sociedade de trabalho”. Em nossa sociedade, quando o trabalho adquire a sua forma atual? Ou melhor, não seria o trabalho, tal qual o conhecemos, o responsável pela opressão na era tecnológica?

Na história do capitalismo ou das sociedades modernas, presenciamos a santificação do ato de trabalhar. De um lado, a moral judaico-cristã que colocou a prática na ordem do discurso religioso, tornando-o fonte inesgotável de sentimento de elevação, para os que vangloriam o ato, e culpa, para aqueles que desprezam a sua importância. Com o avanço da burguesia, na sequência seu amadurecimento na Revolução Industrial, culminando com o capitalismo moderno, a ideia dominante passa a classificar o trabalho como ordem de ascensão social, progresso e “avanço”.  É neste período crucial, que nos debruçaremos para entender de que forma a ordem burguesa e industrial transformou o trabalho humano em mercadoria e capital, e em como essa Ideologia ocupou-se de nos furtar a noção de tempo, espaço e poesia, realizando então, a junção entre homem e máquina.


Melancolia I de Albrecht Dürer e Escola de Atenas de Euclides.



 

Os deuses que dormem nos museus



Se há uma necessidade em nossa época é a de explicar os motivos, as causas e as gêneses do horror e das tiranias veladas. Relembrando o teatrólogo francês Antonin Artaud e o seu “teatro da crueldade”, nunca se falou tanto em crimes e na transformação da brutalidade do que se supõe humano como no século XXI. As mesmas décadas que reivindicaram para si a ordem das liberdades, dos progressos e das “evoluções”, assistem atônitas e anestesiadas o crescimento de genocídios, a separação do homem da natureza, e o prolongamento em outras plataformas, sejam elas tecnológicas ou industriais. As ameaças passam da ordem da vida, para a ordem das ideias, do discurso, da palavra. Inquietação lançada nas novas inquisições: afinal, o que produziu no homem este estado de recrudescimento, e em quais altares os seus deuses rezam agora, provocando não mais a mistificação da vida, mas a ausência que temos dela? Qual “religião” foi profanada para que se busque uma explicação à imagem apocalíptica do mundo?

 

Vênus Enclausurada

Símbolo do Renascimento, do desejo de aniquilamento do teocentrismo, do anúncio dos discursos científicos e da revisitação da arte grega, em uma tentativa de retomada da moralidade de uma estética da existência, “O Nascimento de Vênus”, de Sandro Botticelli (1483) insere na ordem da “modernidade” o signo do feminino, que emerge das águas em uma concha, e é saudado pela deusa Horas. É no início do século XX, após o nascimento de Vênus, que o fotógrafo, pintor e anarquista Man Ray, influenciado pela estética surrealista, enclausura e silencia a possibilidade de beleza em Boticelli. Sua obra “Vênus Restaurada” é a epígrafe de uma sociedade entre guerras, que se viu no desejo de indagar e questionar o papel da subjetividade nas sociedades pós-revolucionárias.

Mas afinal, o que separa os cinco séculos do quadro de Boticelli da escultura de Man Ray? Parece-me que o mais importante e urgente neste momento, não é a resposta definitiva para esta pergunta, mas o caminho inverso: o que possibilitou a inserção da escultura de Man Ray na ordem da simbologia artística, em uma época em que os gêneros “teatralizavam” as consequências do movimento feminista do século XX?


“Vênus Restaurada” de Man Ray e “O Nascimento de Vênus” de Boticell.