Em defesa da sociedade de desesperados

É preciso resgatar as utopias: entoam em uníssono os velhos críticos da crise contemporânea. No pós Era dos Extremos, do adeus do pensamento único e da ordem neoliberal, novas “encenações” de revoluções estremecem as bases das relações de poder. Em menos de um ano, a massa, formada principalmente por jovens e estudantes, tomam as ruas da Espanha, de Portugal, de Londres, da Grécia e dos países árabes, naquilo que os analistas políticos convencionam chamar de primavera árabe. Existe algo em consonância e peculiaridades entre estas manifestações? E no Brasil, por quais motivos a população indignada não ocupou as ruas?

Proponho um ponto de vista não no sentido econômico e social, mas enquanto projeto político, cultural. Se tomarmos como exemplo os três pólos da questão: países árabes, Europa e Brasil – muitos insistem em não entender o motivo da indiferença dos brasileiros em relação à tomada das ruas – perceberemos alguns conflitos, particularidades e cisões. No Oriente Médio e no Norte da África as insurreições desconhecem – pelo menos nesta geração – o significado e o conceito virtual e real de Democracia. A luta nestes países é para a implantação de um Estado de Direito, Representativo e com a participação popular. Talvez, algo próximo das propostas e modelos do começo da ascensão burguesa.


Do outro lado do oceano, suponho que, o Brasil em sua Democracia recente, datada em 1984, mas com uma abertura no campo social e participativo após 2002, esteja ainda em processo de reconciliação e identificação com as bases deste sistema. Como apontou o historiador brasileiro Jacob Gorender em seu “O Escravismo Colonial”, a implantação do capitalismo no Brasil conhece o seu motor, a sua força e a sua engrenagem com a fixação do modelo legalizado de mão-de-obra escrava. Por sua própria lógica excludente, o capitalismo vigora em políticas autoritárias de governos, ditaduras e representantes de uma elite. Identificamos algumas medidas – ainda insuficientes – de distribuição de riquezas, ou como o crítico literário Antonio Candido pontuou: a “face humana” do capitalismo (socialismo). Na contracorrente, não por vanguarda, mas penso que por esgotamento dos corpos e os desmascaramentos de simulacros ideológicos, o continente da Revolução Francesa, que outrora proclamou os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, a passagem deste campo “democrático”, a convivência e conivência com o capitalismo industrial e tardio e a ausência, pelo menos legalista, de regimes autoritários. Em recente especial da revista “Caros Amigos”, sobre o futuro das esquerdas, uma jovem espanhola aponta que diferentemente dos outros países, fora do eixo da Europa, a revolta, provocada pela crise, não é a da reinvindicação de acesso à educação (Chile), ao trabalho e a renda (países árabes), mas é, sobretudo, o direito alienável de rever, desestruturar e se possível, acabar com este sistema. A crise contemporânea é a crise da cultura.

A problemática que recai sobre a estrutura do sistema, obriga-me a recorrer ao crítico literário e político marxista, Frederic Jameson, que aponta uma atitude dialética – pensar sobre o próprio pensar – para tempos de (in) certezas. Segundo ele, em uma análise de 1997, as imagens estereotipadas da arte contemporânea e o fluxo de capitais financeiros, moveriam o mundo em direção ao crash. É importante ressaltar que, a crítica de Jameson também é voltada para o que em nossa sociedade invocamos como cultura.

Mas o que é a cultura?

Alemanha. 1930. Hendrik Hofgen, interpretado brilhantemente por Klaus Maria Brandauer, é um ambicioso ator que não se interessa por política, se dedicando somente à sua carreira. Com a ascensão do nazismo ao poder, ele aproveita a oportunidade para interpretar peças de propaganda nazista para o Reich, e logo acaba se transformando no mais popular ator da história. Em um paralelismo sem precedentes, o diretor húngaro István Szabó estabelece uma releitura e ressignificação do papel de arte, cultura e ideologia no contexto capitalista e totalitário. A ocupação da crítica cultural marxista, contra a hegemonia.

A partir do século XVIII, conforme apontado por Raymond William, com o aperfeiçoamento do projeto político burguês, da retomada da Idade Clássica e o avanço da sociedade industrial, alguns termos foram ressignificados. Assim, por exemplo, a arte, que outrora “era sinônimo de engenhosidade para lidar com os materiais naturais, técnica, trabalho, passa a significar um conjunto particular de atividades e habilidades dependentes da imaginação criadora e da inspiração, destinadas à contemplação e à beleza, isto é, passa a distinguir o artista do artesão e se transformou na ideia burguesa do culto à beleza, tornando-se belas-artes e objeto de disciplina filosófica, a estética”. (Chaui. “Cidadania Cultural: O direito à cultura”. Editora Fundação Perseu Abramo). Neste sentido, cultura, que vinda do verbo latino colere é o cuidado, o cultivo com as plantas e os animais (agricultura), e por extensão é a educação que desenvolve qualidades e faculdades naturais das crianças (puericultura), passa a transitar entre a oposição à civilização. Cultura é antes de tudo, o dispositivo político de controle das rebeldias e das barbáries. É história. Oposição entre liberdade (cultura e história) e necessidade (natureza). Como demarca o materialismo histórico de Marx, em negativa ao idealismo hegeliano, que propunha cultura como Espirito de um tempo, a cultura em nossa história, independente da época, é resultado de determinações materiais econômicas sobre as relações sociais. Em poucas palavras, é ao lado da religião, das ciências pós-iluministas: ideologia. Daí o autoritarismo da atitude de homem culto e inculto, a abertura de possibilidades de colonização, de aperfeiçoamento e imposição cultural às civilizações ditas bárbaras. Se na visão marxista este processo se intensifica com a colocação do modo de produção capitalista no qual tudo (coisas e humanos) é reduzido à condição de mercadoria, é como veremos, com a chegada dos frankfurtianos que se intensifica a cultura como teatro de sombras do que supomos realidade.


Cena do filme “Mephisto”.

A espetacularização do (in) visível

Em seu “O Teatro e seu Duplo”, o teatrólogo e pensador Antonin Artaud, autor que Foucault, ao lado de Nietzsche recomenda a retomada para tempos extremos, mostra em seu prefácio “O Teatro e a Cultura” a tradução da madrugada fria sem amanhecer que enfrentamos. Diz ele: “Nunca como neste momento, quando é a própria vida que se vai, se falou tanto em civilização e cultura (grifo meu). E há um estranho paralelismo entre esse esboroamento generalizado da vida que está na base da desmoralização atual e a preocupação com uma cultura que nunca coincidiu a vida e que é feita para reger a vida”. Artaud traça ainda, em um gesto ousado, a impossibilidade de esta cultura nos salvar da fome. Não a fome, apenas, no sentido fisiológico e social, mas algo mais idêntico àquilo que Nietzsche propõe como o trágico.

É desta “ausência” de tragédia, que Theodor Adorno e Max Horkheimer se ocupam em seu artigo “A indústria Cultural – O Iluminismo como mistificação das massas”. Para eles, ao ocupar-se das tragédias como redenção, culpa e castigo, a Indústria Cultural, ideológica por excelência, propõe o escamoteamento do ser trágico/ dionisíaco, aquele que na ausência de esperanças – ao contrário de nossas sociedades, os gregos não “esperavam” – enfrenta o terror e a ameaça mitológica. O olho que tudo vê, a ciência do sonho, e a cientificidade da vida fazem o caminho inverso: mistificam a vida, para desmistificá-la, fazem da esperança uma prece eloquente, como se em uma sala de cirurgia de hospital, esperássemos a cura de nossos males. Pela lógica da “reinvenção”, da repetição, da mecanização, da explosão de imagens e pela sociedade de espetáculo (Guy Debord) nos reconduz à idealização da vida. Não saímos da caverna de Platão, e ainda que saíssemos o mundo lá fora, ainda é uma reprodução daquilo que assistimos nas telas de cinema. O que se passa no externo é mistério na sala de projeção.

Aniquilações duplas. A primeira: o estágio final do fetichismo da mercadoria: “As obras de arte são ascéticas e sem pudor; a indústria cultural é pornográfica e pudica. Ela assim reduz o amor à fumaça. E dessa forma muita coisa passa, inclusive a libertinagem como especialidade corrente em pequenas doses e com etiqueta daring (ousado). A produção em série do sexo realiza automaticamente a sua repressão”. (Adorno e Horkheimer). A segunda, ao lado da moda e da cultura pop com suas celebridades, nos mostra o esvaziamento do sentido de individualidade inexistente. Eis aqui, a derrocada, a farsa, a ideologia desnudada “A pseudo-individualidade é a premissa do controle e da neutralização do trágico: só pelo fato de os indivíduos não serem efetivamente assim, mas simples encruzilhadas das tendências do universal, é possível recapturá-los integralmente na universalidade”.

Apostando no não apocalíptico, qualquer celebridade ou artista “cultivado” na Indústria Cultural, “antecipando” signos futuros, ou ditos como discursos de vanguardas, logo se reduzem as marcas e as engrenagens deste sistema. Custa acreditar, e me parece até ingênuo, que certos discursos (políticos), libertários ou não, se inscrevam na ordem da liberdade em uma lógica, que como em uma roda-viva (eis o motivo do termo Indústria), recapitula, volta, se guia para o mesmo ponto. As liberdades ditas, logo são dissolvidas nas imagens. Fica a sensação torta de que nada pode ser inventado. Eis o triunfo do projeto político burguês. Como em uma ciranda, giramos de mãos atadas.

Paradoxal, e como já citei anteriormente, as tecnologias, a cultura digital e a Internet se ideologizam, tornando-se a nova religião do século vindouro. O crucificado ressurge em vias virtuais. Em recente entrevista para um programa de televisão, o norte-americano Eli Pariser aponta em seu recente livro “The filter bubble” – sem previsão de lançamento no Brasil – o equivoco em classificar a cultura da Internet como democrática. Por meio do trabalho de campo, mostra como sites de buscas e redes sociais, ao invés de acessibilidades, dificultam a informação. Como exemplo, temos a página do Facebook. Imaginemos que o usuário seja um artista plástico. A rede indicará, conforme os seus gostos e preferências, “amigos”, comunidades, leituras e páginas que estejam de acordo com o universo das artes plásticas. Em um primeiro momento, essa lógica parece ser interessante, mas é novamente a reafirmação do pacto burguês de cultura, no contexto mercadológico, como apropriação e controle do pensamento e dos corpos.

Talvez, quem sabe em uma aurora próxima, façamos na materialidade da vida e não na materialidade na vida, como a personagem central na cena final do filme “Mephisto”: entediados com o aniquilamento das individualidades pela cultura, deixaremos que o canhão de luz se acenda, revele nossos rostos, e que o Ministro nos aponte o local em que se realiza o jogo do espetáculo. Olhando para a câmera (máquina) discursaremos: O que querem de mim? Eu sou “apenas” um ator. Que os nossos sonhos e utopias, menos científicas e controladas, ultrapassem as luzes e a arena, cumprindo o desejo das revoluções, e colocando-nos de volta ao nosso destino trágico.

Ponto de Vista: “A Indústria Cultural”. Autor: Theodor Adorno. Coleção: Leituras. Editora: Paz e Terra. www.pazeterra.com.br

BRUNNO ALMEIDA MAIA
brunnoalmeida@brrun.com

  • Sugestão do amigo Marco Andreól via Facebook: Em algum ponto eu acrescentaria esta frase do Malevich, suprematista russo do começo séc.20: "A arte não se preocupa mais em servir ao Estado ou à religião; ela não deseja mais ilustrar a história dos costumes, não quer ter mais nada a ver com o objeto com tal, e acredita que pode existir em si mesma e para si mesma, sem as coisas." (1913)