Nem todo carnaval tem seu fim (uma pequena retrospectiva)

Los Hermanos – São Paulo – 01.06.2012

A primeira vez que ouvi falar em Los Hermanos foi no longínquo ano de 1999, não devido ao disco homônimo lançado no mesmo período pela Abril Music, mas graças a um cd que veio encartado em uma edição da finada revista Showbizz, prática muito comum na época, quando as rádios e publicações especializadas ainda eram o melhor modo de se informar sobre o que rolava por aí. A internet, é bom lembrar, ainda era muito diferente da que conhecemos hoje. Não tinha a mesma propagação, a mesma velocidade (o próprio cd vinha com um mês grátis de internet discada) e os programas de compartilhamento P2P ainda estavam em sua infância (o Napster foi criado também em 1999).

Recordo-me ainda de ter odiado o nome. Cheguei a pensar ser alguma banda da América Latina se aventurando pelo mercado brasileiro, o que na época também não era raro. No fim das contas, mesmo coberto de pré-conceitos ouvi o disco, mais especificamente a única música dos Hermanos (cariocas, quem diria…) no disco, a grudenta “Anna Júlia” e não consegui parar de ouvir durante a semana toda. Depois, mesmo já cansado da música, não haveria como não ouvi-la, visto que era tocada o dia todo em todas as rádios e na MTV, com direito a clipe com a Mariana Ximenes. Em alguns meses a minha fixação inicial pela canção havia se transformado em uma birra das mais infantis graças à overdose de execuções e ao resto do disco ser muito diferente do que eu esperava ou gostaria, o que me fez colocar os Hermanos no meu baú mental de “bandas que espero nunca mais ouvir na vida”. Como eu poderia estar mais enganado?

Dois anos mais tarde a banda lançaria um disco novo (usando o melhor sentido da palavra) e obrigaria muita gente (como eu) a dar o braço a torcer. Com mudança na formação do grupo (o baixista Patrick Laplan deixara a banda alegando divergências musicais), o álbum Bloco do Eu Sozinho (2001) passou longe de ter um hit como “Anna Júlia” e vendeu menos que o anterior, mas em compensação caiu nas graças da crítica e de uma parcela do público que até então ignorava ou, na melhor das hipóteses, subestimava a banda. Com composições maduras como “Sentimental”, “Todo carnaval tem seu fim”, “Casa Pré-fabricada”, entre outras, os Hermanos se reinventaram.

Em 2003, já em nova gravadora (BMG, atual Sony Music), é lançado Ventura (2003), disco que muitos consideram o melhor trabalho da banda, com influências ainda maiores de samba e MPB. Marcelo Camelo mostrando a mesma maturidade musical e Rodrigo Amarante despontando com músicas que já se tornaram clássicas. Sucesso de crítica e não decepcionando o público exigente (e cada vez mais fiel e apaixonado) do grupo, o álbum consolidou os Hermanos de vez no cenário musical brasileiro. A turnê do disco ainda deu origem ao DVD “Ao vivo no Cine Íris”, gravado no Rio de Janeiro, registro fundamental da banda. Os cariocas haviam em poucos anos deixado o estigma de “one hit Wonder” de lado (“Anna Júlia” já não dava as caras nos shows da banda há tempos e ninguém sentia falta http://www.youtube.com/watch?v=iypM6LKhB8o) para se tornar uma das bandas mais representativas do que era ser “alternativo” ou “indie” no país, mesmo que não no sentido comercial, visto que a banda sempre estivera vinculada a uma grande gravadora. Usar barba e camisa xadrez ainda hoje é categorizado grosso modo por algumas pessoas como “estilinho Los Hermanos”, o que admito, me irrita um pouco, mas mostra a influência da banda sentida fora do contexto estritamente musical.

O último disco, intitulado simplesmente de Quatro (2005), saiu dois anos depois e dividiu as opiniões. Com maiores influências de Bossa Nova, o trabalho mostrava um novo caminho seguido pela banda e principalmente por Marcelo Camelo, cuja vindoura carreira solo refletiria boa parte da sonoridade do álbum. Em 2007, para surpresa dos fãs, a banda anunciou um “recesso por tempo indeterminado”.

Dessa forma, quando a banda anunciou a turnê de 2012 a reação não poderia ter sido diferente: ingressos esgotados e excitação geral por parte do público.  A banda que eu havia subestimado no início, que começara com um hit adolescente e pueril, se tornara uma peça sem igual na cena nacional. Afinal de contas, que outra banda mesmo estando fora do mainstream propriamente dito, com apenas quatro disco lançados, pode se dar ao luxo de fazer um hiato de cinco anos e ainda voltar com a mesma (ou maior) força e adoração dos fãs? O fato é que nestes cinco anos não houve banda que preenchesse a lacuna deixada pelos Los Hermanos, nem mesmo os projetos paralelos de seus integrantes, e é exatamente isso que torna a banda ainda relevante. Não acho errado chama-los de um fenômeno pop raro, quando a qualidade musical se soma ao carisma da banda e a um público apaixonado que consegue apreciar tudo isto. Infelizmente a turnê chegou ao final e não há notícias de um novo disco no horizonte, mas a equipe do BRRUN juntamente com  sua agência digital ZupiBox esteve presente no último show da banda em São Paulo no dia 01/06 e traz fotos exclusivas na galeria. Para quem esteve presente vale recordar, para quem perdeu resta torcer para que o hiato dessa vez seja menor.

Los Hermanos – São Paulo – 01.06.2012

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GUSTAVO RICHIERI

Fotos: BRRUN.COM / Agência ZupiBox © Copyright

  • Nossa, me identifiquei muito! Fui no último dia da turnê aqui no Rio e parece que vi toda a minha vida (ou boa parte dela) passar pela minha frente conforme as músicas foram sendo tocadas.
    Excelente 'review' da trajetória dos barbudos!